Não ser brâmane
Em “A guerra não tem rosto de mulher”, a membra da resistência Liubov Eduárdovna Kréssova relembra que em uma terça-feira, ao se aproximar de sua janela, viu um menino e uma menina se beijando na rua, antes de serem assassinados por uma patrulha nazista que chegava ao progrom. Ao contar a história para a escritora Svetlana Aleksiévitch, Eduárdovna conclui dizendo que o casal optou por morrer assim.
“Depois… Passou um dia, o segundo… O terceiro… E eu só pensava nisso. Precisava entender: eles não estavam se beijando em casa, e sim na rua. Por quê? Queriam morrer assim… Sabiam que iam morrer no gueto de qualquer jeito e queriam morrer de uma outra forma. Claro, isso é o amor. E o que mais seria? O que mais poderia ser…? Só amor.”
Já em “Ioga”, de Emmanuel Carrère, é contada a história do asceta Sangamaji que, antes de se retirar do mundo, viveu com uma mulher e uma criança. “Ele abandonou ambos em nome de suas realizações mais elevadas, ou que ele pensa assim serem. A mulher caiu na miséria e veio lhe pedir ajuda. Ela mostra seu filhinho todo magro, todo esfomeado, ela suplica. Ele não responde, não pestaneja, continua sentado de pernas cruzadas”.
Apesar de todo o sofrimento de sua mulher e seu filho, ele prossegue firme em sua postura, até que ela, agoniada, pega a criança e vai embora sem olhar para trás. “O mais perturbador nessa história é que ela não é contada como um exemplo de um coração seco, atroz, e de uma devoção pervertida”. Pelo contrário, Buda parabeniza o asceta, falando: “Ele está livre de todos os laços. Este homem, eu o chamo de brâmane”.
Há alguns dias, no jornal inglês The Guardian, o jornalista Lorenzo Tondo escreveu sobre o menino Moatsem al-Sharafy, assassinado por soldados israelenses ao ir buscar lenha, para que sua mãe pudesse cozinhar algo. “Ele saiu de manhã, com fome. Me disse que iria rapidinho pegar lenha e voltar”, diz sua mãe, Safaa al-Sharafy.
Após sete anos, ainda faltam dois corpos para serem achados em meio a lama em Brumadinho.
“Não sei… Não, eu entendo o que você está perguntando, mas minha língua não é suficiente… Minha língua… Como descrever? Preciso,,, Que… Um espasmo sufoque, como acontece comigo: à noite fico deitada em silêncio e de repente me lembro. Perco o ar. Sinto um calafrio. É assim… Em algum lugar essas palavras existem… É preciso um poeta… Como Dante…”, Anna Pietróvna Kaliáguina, sargento e enfermeira-intrutora na II Guerra Mundial, crê.
“O que escolhemos preservar quando tudo desmorona? Se há algo que atravessa essas histórias, não é uma lição moral clara, mas a certeza de que qualquer mundo que normalize a indiferença — seja em nome da guerra, da fé ou do progresso — já fracassou”, ironicamente conclui, o ChatGPT.
Como não fazer da linguagem um brâmane?



o plot twist, cruel, escancara a morte da linguagem. a simplificação, a “moral da história". nada que é humano pode ser descrito por um algoritmo. “é preciso um poeta … como Dante”. brilhante.