Domingo
Crônica escrita para o evento #28 do Coletivo Difluência
Toda vez é assim. Sempre que me aposento da escrita, alguém me puxa de volta. Dessa vez foi o Pedro. Pedi pra ele me anunciar como Marcelo Moreno, em referência ao eterno artilheiro da seleção boliviana, que joga desde os tempos de Simon Bolívar, mas ele não topou.
Disse que até no Difluência é preciso esquema tático. Enfim. Nem em um evento de experimentações deixam um zagueiro virar camisa 9. Parece que o dinizismo é demais até pra cá.
Feito o um-dois, e aquecida a garganta (lá ele) já é hora de transformar a posse de bola em resultado efetivo. Digo, já é hora de tratar efetivamente do assunto. Do causo. Da crônica, em si.
Infelizmente, como disse, estava aposentado. Gastei demais os joelhos e as vistas vendo nossa espécie se degladiar, dia após dia, pra ter o mínimo do mínimo no amor, no prato, no bolso, na vida e não sei mais no quê. E como insistentemente ouço dizer que está “tudo bem” isso e “tá tudo bem” aquilo, larguei mão. Não escrevo mais crônicas sobre gente. Só sobre as nuvens.
Inclusive, hoje está sendo fabuloso nesse sentido. Lá pelas 5h30 estava uma cerração doida, tudo nublado. Não se via nada, nada pra além de uns dois quarteirões de distância. Então, foi raiando o dia e, devagarinho, esse céu de cimento começou a ser pintado de um azul lindo lindo, e o cinza foi se transformando em branco, e o branco começou a brilhar, e daí surgiu o Sol desse nosso dia. E assim, nascido esse domingo feliz e sem obrigações clubísticas e nacionais com a seleção, esse domingo de transmutação das cores no céu revelou, logo às 6h da manhã, que tudo muda, menos a depressão que é viver entre prédios do Wilson da Rezato e Cia limitada.
Dezenas e dezenas de metros de altura vilipendiando as vistas dos morros, ora no formato de shampoos pantene e head and shoulder, ora no de detergente Ypê de cabeça pra baixo. A burguesia municipal transformando o mar de morros em um banheiro. Que situação.
Mas é domingo. É o dia pra aproveitar. E, olhando pra cima, tudo é infinito, tudo é bonito. Dá até pra sonhar. Sonhar no dia em que, quando as nuvens voltarem pra esse azul, todas serão oráculos e videntes, avisando que a vida boa é essa. As nuvens, em seus diferentes formatos, vão revelar que toda água que cair delas não servirá mais para justificar a morte causada pela ganância de uns.
E essas nuvens imaginárias, além disso, vão revelar que não há mais razões para viver, além de aproveitar sua dança com o vento. Os calendários serão abolidos e a humanidade, finalmente, terá desistido de qualquer “objetivo” messiânico, aproveitando um eterno domingo com as demais espécies desse mundo de Noé.
Mas hoje é domingo, e pede cachimbo. E como nós todos sabemos, amanhã e segunda. O buraco é fundo, acabou-se o mundo.
Enquanto não acaba, aproveitemos esse céu índigo blue. Quem sabe logo, logo, sob as nuvens do próximo final de semana, a humanidade se reinvente para viver mais um final de semana.


eu sempre achei que era domingo pé de cachimbo
amei esse💗🌇