1º de maio
um panfleto cronístico
I
Há um tempo se iniciou uma moda engraçada aqui, em Juiz de Fora: divulgar cada vez menos os protestos com pautas à esquerda. Diferentemente do que vocês podem pensar, isso não ocasionou negatividades, muito pelo contrário, só positividade e coisas boas. Tanto que nesse 1º de maio de 2026, dia em que os diferentes partidos e movimentos que compõem a esquerda se organizaram pelo fim da escala 6x1, o que se viu foi um show - um tanto esvaziado, é verdade - de pura alegria e educação. Tirando por um ou outro momento, onde a indignação, a revolta e as críticas (ao genocídio palestino, ao imperialismo estadunidense, ao desmonte dos Correios e a loucura da dosimetria) foram entoadas pelos timoneiros de microfone na mão, o que se ouviu foi que tudo está indo até que bem, tudo está até que belo, como o canto dos sabiás que, às vezes, bem raramente, aparecem ali na Praça Clodesmidt Riani. Muita positividade e pouca gente. Assim que é bom, aparentemente. Veremos no que dá.
E bem, como fui lá e não consegui protestar tudo que tinha pra protestar, que seja essa crônica um manifesto do que me sobrou. E o que sobrou? Um certo cansaço, pra ser sincero. A ideia de que poderia ter almoçado com a família, de que poderia ter ido pra uma cachoeira pela tarde. Adiantado uma ou outra coisa dos estudos e dos trabalhos. Essas coisas. Sobrou também uma tristeza. Uma dessas que logo menos a gente se resigna, por saber que fez o que achava certo ser feito. Mesmo assim, ela segue indo e voltando, calmamente, como uma maré que ora traz preocupação ora traz desesperança. A velha-guarda se esvai e meus pares não sabem nadar. Nesse mar de gente pedindo socorro, quem consegue ouvir as ideias de quem aprendeu a boiar?
Veremos no que dá.
II
Mesmo sem revolta, ainda é feriado. E isso é possível aproveitar. Amanhã talvez seja igual, ou pior, ou melhor. Só vivendo para saber.
Veremos no que dá.
III
A praça foi dividida. Até 10h30, os evangélicos pregaram, depois começou o samba dos trabalhadores. Panfletos em troca de santinhos. Temas similares: as dificuldades e como mudar a vida para melhor. Ao final da pregação, os trabalhadores foram louvados, com parte dos evangélicos indo cumprimentar os sindicalistas da velha-guarda. Por alguns minutos, ficaram ali, aproveitando a música e o sol. Foram embora. Não os vi falando com os vereadores e deputados estaduais. Preferiram caldo de cana.
A hora passava. Chegaram as falas. Muita conversa na hora de uns, muita atenção na de outros. Silêncio no grito dos estudantes. Alguns sorrisos. Ê laia, veremos no que dá!
IV
Às vezes acho que trabalhar é dividir e cansar. Às vezes acho que é a única forma de mudar o mundo. Às vezes acho que tudo está bem, outras que tudo está mal. Sem razões, sem motivos, só uma sensação na pele que guia por onde seguir, com quem vale falar. Não sei se viver é só tentar aproveitar. Não sei se viver é algo além de tentar aproveitar. Protestar e voltar desmotivado. Vazio. Muita positividade, pouca contradição. Enfim, que fase. Foi-se o que restou. Agora é ver no que dá. Quem sabe…
A única resposta é encher o próximo ato. Só assim dá pra chamar de festa.

